OpenAI resolve enigma matemático de 27 anos, e o matemático original acusa a empresa de mentir
Andreas Thom, da Universidade Técnica de Dresden, diz que a OpenAI só respondeu parte de suas perguntas sobre o uso de conversas privadas no treinamento do modelo Astra.
Um matemático alemão está cobrando explicações da OpenAI depois que a empresa usou um dos problemas mais difíceis da área para mostrar a força de sua inteligência artificial. Segundo o The Verge, Andreas Thom, pesquisador da Universidade Técnica de Dresden, diz que a resposta que recebeu da empresa foi “plenamente desonesta” e por isso decidiu tornar pública sua desconfiança.
A história começa em agosto, quando a OpenAI divulgou dez avanços matemáticos que, segundo a empresa, seu modelo mais recente, batizado de Astra, teria alcançado sozinho. Um deles chamou a atenção de Thom: a primeira construção de um “grupo não-sófico”, um tipo de estrutura matemática que resolve uma pergunta em aberto havia 27 anos, proposta pelo matemático Mikhail Gromov. O tema é justamente a especialidade de Thom, que já havia publicado, em parceria com o colega Gábor Kun, um artigo de 2019 sobre o mesmo problema.
Thom publicou o relato em três partes numa rede social voltada a matemáticos, o Mathstodon, sem o tom de acusação direta que normalmente domina esse tipo de polêmica: ele preferiu listar evidências e deixar a conclusão em aberto. O que incomodou o pesquisador não foi a IA ter chegado à resposta. Foi o histórico de conversas que ele próprio teve com o ChatGPT nos últimos meses, discutindo esse mesmo problema e extensões do trabalho feito com Kun. Ele quis saber duas coisas da OpenAI: se essas conversas privadas entraram nos dados de treinamento do modelo, e se o sistema teve acesso a elas enquanto trabalhava na demonstração. A resposta da empresa, segundo ele, tratou apenas da segunda pergunta, negando o acesso direto durante o processo, e deixou a primeira sem resposta.
Para quem não estuda matemática, o detalhe central é outro: mesmo removendo nomes de uma conversa, a ideia matemática discutida ali continua exposta. É como apagar a assinatura de um documento sem apagar o conteúdo — a ferramenta que protege dados pessoais não protege necessariamente uma pesquisa ainda não publicada. Thom não afirma que a OpenAI roubou seu trabalho de propósito; o pedido dele é mais simples e, ao mesmo tempo, mais incômodo para a empresa: que ela mostre as configurações de conta e os registros de treinamento que embasam a negativa.
O caso chega em um momento delicado para a OpenAI. Outro matemático vem fazendo perguntas parecidas sobre a mesma leva de descobertas anunciadas em agosto, e a empresa ainda não respondeu publicamente às novas cobranças. Para o público em geral, a discussão levanta uma dúvida que já apareceu antes com escritores e artistas e agora chega aos cientistas: quando uma IA aprende com anos de trabalho alheio, quem tem direito sobre o resultado, e como confiar na palavra da empresa que treinou o modelo? Sem acesso aos dados internos usados no treinamento, ninguém de fora consegue confirmar sozinho quem está certo. Thom aposta que só a pressão pública é capaz de arrancar da OpenAI uma resposta completa.
Fonte: The Verge
Perguntas frequentes
O que é um 'grupo não-sófico'?
É uma estrutura matemática avançada, ligada à teoria dos grupos, cuja existência era uma pergunta em aberto havia 27 anos, proposta pelo matemático Mikhail Gromov.
A OpenAI admitiu ter usado as conversas de Thom no treinamento?
Não. A empresa respondeu apenas que o modelo não teve acesso direto às conversas durante a demonstração, mas não confirmou se elas entraram nos dados de treinamento.
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