App de IA para reuniões expõe 180 mil chamadas ao vivo: entre elas, uma reunião do governo brasileiro
Falha de segurança no tl;dv, app de IA que grava reuniões no Zoom, Teams e Google Meet, deixou quase 82 mil usuários e encontros de governos de 23 países visíveis para qualquer pessoa cadastrada.
Um assistente de inteligência artificial pensado para facilitar reuniões virou, por meses, uma porta aberta para espionar encontros de governos e empresas ao redor do mundo. Segundo o pesquisador de segurança conhecido como BobDaHacker, o tl;dv, aplicativo que entra em chamadas do Zoom, Google Meet e Microsoft Teams para gravar e resumir o que foi dito, tinha uma falha capaz de expor mais de 181 mil reuniões a qualquer pessoa com uma conta na plataforma.
O tl;dv funciona como um participante a mais na chamada: você o convida, ele grava, transcreve e depois entrega um resumo automático do encontro. O problema estava no banco de dados usado para organizar essas gravações, batizado de Firestore, que deveria isolar as informações de cada cliente e não fazia isso. Na prática, qualquer usuário autenticado no tl;dv conseguia consultar o histórico de reuniões de outras contas, com o e-mail de quem criou cada encontro e o link direto para entrar nele. Ao todo, o pesquisador contou 181.874 registros de reuniões ligados a mais de 84 mil usuários espalhados por 35 mil domínios de e-mail diferentes.
O detalhe mais alarmante é que a falha não se limitava a olhar dados antigos. Em qualquer momento, havia em média cerca de mil reuniões marcadas como “gravando” naquele instante, ou seja, chamadas ao vivo com o link exposto. O pesquisador relata que, ao se passar pelo próprio assistente de IA do tl;dv e pedir para entrar nessas chamadas, conseguia acesso em cerca de 80% das tentativas, sem qualquer convite legítimo. Entre os encontros encontrados dessa forma estavam reuniões de governos de 23 países, incluindo um encontro do governo brasileiro sobre o Pacto Mata Atlântica, programa de conservação que reúne organizações como WWF, The Nature Conservancy e o governo do estado de São Paulo.
Para quem nunca ouviu falar em Firestore ou em “isolamento entre contas”, o resumo prático é simples: uma empresa de tecnologia guardou dados de clientes diferentes numa mesma gaveta sem trava, e qualquer pessoa com acesso à gaveta podia remexer no que não era dela. Isso vale tanto para uma reunião de trabalho comum quanto para uma negociação sigilosa ou uma reunião de governo, e é justamente esse tipo de conteúdo sensível que apps de anotação por IA como o tl;dv prometem tratar com cuidado.
O caso também expõe um problema que vem se repetindo com ferramentas de IA que ganharam espaço rápido demais: a falha foi reportada à empresa em janeiro de 2026, e o pesquisador afirma que, meses depois, ainda não havia recebido confirmação de correção nem resposta consistente da equipe responsável. Enquanto isso não muda, qualquer reunião marcada com o tl;dv carrega um risco que a maioria dos participantes provavelmente desconhece. Vale conferir, antes de aceitar um convite de reunião com um assistente de IA acoplado, quem realmente tem acesso ao que for dito ali dentro.
Fonte: BobDaHacker
Perguntas frequentes
O que é o tl;dv e o que a falha expôs?
O tl;dv é um assistente de inteligência artificial que entra em reuniões no Zoom, Google Meet e Microsoft Teams para gravar e resumir o encontro. Uma falha no banco de dados da empresa deixava visível, para qualquer usuário autenticado na plataforma, o e-mail de quem criou cada reunião e o link de acesso a ela.
Reuniões do governo brasileiro foram afetadas?
Sim. Segundo o pesquisador que encontrou a falha, um dos encontros expostos foi uma reunião do governo do Brasil sobre o Pacto Mata Atlântica, programa de conservação da Mata Atlântica, com participantes de organizações como WWF e o governo do estado de São Paulo.
A falha já foi corrigida?
Até a divulgação do caso, não. O problema foi reportado à empresa em janeiro de 2026 e, segundo o pesquisador de segurança responsável pela descoberta, seguia sem resposta efetiva meses depois.
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